Como Funcionam as Instituições de Saúde em Portugal

Porque a estrutura formal é o mapa, mas um mapa não é mais do que a descrição da geografia.

Todos os modelos estão errados. Alguns são úteis.

George Box, estatístico britânico (1919–2013)

Introdução

No primeiro dia num cargo de gestão, muitos médicos pedem para saber — ou procuram sozinhos — quem é quem no universo da instituição. É um impulso compreensível: o organograma promete uma coisa extraordinariamente sedutora, que é a clareza. Quem manda em quê, quem responde a quem, onde estão as fronteiras. Para quem foi treinado numa cultura profissional que valoriza a precisão, a ordem lógica e a definição clara de responsabilidades, essa promessa é naturalmente atraente.

O problema é que o organograma engana. Não intencionalmente — é uma representação honesta da estrutura formal. Mas a estrutura formal e o funcionamento real são duas coisas diferentes, e em instituições de saúde a distância entre elas pode ser enorme. O poder não circula apenas por linhas hierárquicas. Circula também por relações de confiança, pelas dependências operacionais, pelas rotinas instaladas, pelas redes profissionais, através do controlo de informação e da capacidade de mobilização e acesso aos centros de decisão.

O sociólogo Karl Weick, um dos autores mais influentes na teoria das organizações do século XX, desenvolveu o conceito de sistemas fracamente acoplados — estruturas organizativas em que as diferentes partes mantêm elevada autonomia relativa e em que a dinâmica real nem sempre acompanha integralmente a lógica hierárquica formal. Num hospital, pode haver uma disrupção grave no serviço de urgência médica por falta de internistas e, no mesmo dia, a atividade de oftalmologia decorrer com relativa normalidade. Não porque não pertençam à mesma organização, mas porque funcionam com graus relevantes de autonomia operacional e com interdependências apenas parciais.

Definições
sistemas fracamente acoplados
Conceito desenvolvido por Karl Weick num artigo seminal de 1976 — 'Educational Organizations as Loosely Coupled Systems' — escrito originalmente para universidades e escolas, não para hospitais. A intuição central é que o acoplamento fraco não é uma falha de coordenação, mas uma característica adaptativa: permite que cada unidade responda ao seu ambiente local sem arrastar o sistema inteiro em cada perturbação. Investigação posterior, nomeadamente de Enrico Coiera (2011), mostrou que este acoplamento fraco nos hospitais tem uma dimensão de segurança curiosamente dupla: contém falhas locais (impedindo que se propaguem sistemicamente), mas pode também mascarar deriva perigosa (porque o sistema central não deteta problemas até serem graves). O oposto — acoplamento forte, como uma linha de montagem — é mais eficiente na normalidade mas colapsa de forma catastrófica perante falhas.

Em 2026, esta distinção entre a forma e o verdadeiro funcionamento tornou-se ainda mais importante em Portugal. O SNS continental atravessou, desde 2022, uma transformação institucional relevante: o novo Estatuto do SNS, a criação da Direção Executiva do SNS, a generalização do modelo ULS, a extinção das ARS e o reforço da contratualização integrada. Ao mesmo tempo, persistem as tensões que moldam o quotidiano de qualquer serviço: a escassez de profissionais em várias áreas, os tempos de espera prolongados, a elevada utilização dos serviços de urgência, as desigualdades territoriais e a pressão para integrar cuidados sem comprometer produção, qualidade e sustentabilidade.

Este capítulo tem, por isso, um duplo objetivo. Primeiro, descrever de forma rigorosa como está hoje organizada uma instituição pública de saúde em Portugal, sobretudo uma ULS do SNS continental, que é o modelo dominante desde 2024. Segundo, mostrar como essa arquitetura formal convive com uma realidade organizacional mais relacional, mais negociada e mais contingente do que o desenho institucional deixa perceber. O diretor de serviço precisa das duas leituras. Sem a primeira, não entende o enquadramento. Sem a segunda, não consegue agir com eficácia.

O Sistema de Saúde Português: Uma arquitetura em transformação

Do Hospital Autónomo à Unidade Local de Saúde num Portugal que não é só SNS

O capítulo centra-se principalmente no SNS continental, porque é aí que o modelo ULS e a reorganização recente se exprimem com maior clareza. Mas seria errado confundir o SNS com o sistema de saúde português como um todo. Portugal mantém um sistema predominantemente financiado por impostos e assente num SNS universal, mas este coexiste com subsistemas de saúde ligados a determinadas profissões ou setores e com seguro voluntário de saúde. É importante que os médicos, sobretudo quem assume funções de direção, tenham noção do conceito de mix público-privado em saúde: a coexistência estruturada entre financiamento e prestação pública e privada no mesmo sistema. Em Portugal, a despesa em saúde representa cerca de 10% a 10,2% do PIB, e apenas cerca de 62% da despesa total é financiada por fontes públicas — os pagamentos diretos do bolso dos cidadãos rondam 29% a 30% da despesa total em saúde, um dos valores mais elevados da União Europeia.

Definições
mix público-privado
A OCDE usa o termo 'mixed health system' para descrever configurações onde financiamento e prestação pública e privada coexistem no mesmo sistema. O caso português é historicamente marcado: a ADSE foi criada em 1963 (antes do SNS), os subsistemas de saúde ocupacional têm raízes nos anos 70, e o seguro voluntário de saúde cobre atualmente cerca de 25% da população portuguesa. Em comparação, os pagamentos diretos das famílias em Portugal rondam os 29-30% da despesa total em saúde, enquanto a média europeia é de cerca de 15% e a espanhola de 23-24%. Isto significa que, na prática, o sistema português funciona com uma co-responsabilização financeira das famílias muito superior ao que a maioria dos europeus vivencia — o que tem implicações diretas em quem acede ao quê e quando.

O hospital público não funciona num vazio. Uma parte relevante dos doentes circula entre os dois sectores: faz consultas, exames ou cirurgia programada no privado, mas recorre ao SNS quando surgem complicações, descompensações agudas, necessidade de cuidados diferenciados ou internamento urgente. O inverso também acontece: doentes observados e estabilizados no SNS prosseguem partes do seu percurso no sector privado. Neste contexto, os conceitos de crowding-out e crowding-in ajudam a perceber esta dinâmica.

Definições
crowding-out
O conceito vem da macroeconomia, onde descreve o efeito do investimento público a deslocar o investimento privado através do aumento das taxas de juro. Adaptado à saúde por economistas como Papanicolas e Smith, refere-se à possibilidade de a expansão do sector privado absorver profissionais, atividade ou procura que noutro contexto permaneceriam no sector público. O mecanismo mais documentado é o da 'fuga de cérebros' institucional: em Portugal e noutros países europeus, o crescimento do sector privado nos anos 2010 coincidiu com aumento da dedicação parcial de médicos especialistas ao sector privado, reduzindo a disponibilidade efetiva para o SNS. Russo et al. (2019) quantificaram este efeito em vários sistemas de saúde europeus.
crowding-in
O fenómeno inverso ao crowding-out: quando a existência do sector privado devolve pressão ao sector público, geralmente sob a forma de complicações, urgências e casos complexos que o privado não acompanha de forma integral. O exemplo mais documentado em Portugal é a cirurgia ortopédica e oftalmológica eletiva: muitas cataratas e próteses de joelho fazem-se no privado, mas as infeções pós-operatórias, as revisões, as complicações anestésicas e os doentes com comorbilidades que excluem os critérios de seleção privados acabam no SNS. Este fluxo bidirecional é estrutural e não aparece no organograma — mas está todos os dias nos internamentos de urgência e na gestão de camas.

Um diretor de Serviço de Cirurgia Geral percebe isto intuitivamente. Sabe que alguns doentes com seguro ou subsistema optam por fazer a cirurgia eletiva no privado. Mas também sabe que, quando aparece uma complicação pós-operatória — uma infeção, uma hemorragia, uma oclusão, uma dor abdominal aguda —, é frequente o regresso ao SNS, em particular à urgência hospitalar. Este fluxo bidirecional é estrutural. Por isso, quem lidera não pode analisar tempos de espera, procura urgente ou pressão sobre camas como se o hospital fosse um sistema fechado.

Durante muitos anos, a organização pública da prestação de cuidados em Portugal assentou numa lógica segmentada. O hospital ocupava-se sobretudo do episódio agudo e diferenciado. Os cuidados de saúde primários desenvolviam-se segundo uma racionalidade própria. Em muitos percursos clínicos, a verdadeira integração não era assegurada pelo sistema, mas pelo próprio doente e pela sua família, através de deslocações, telefonemas, relatórios e insistência persistente. A escassa coordenação entre níveis de cuidados gera ineficiência, duplicação, atrasos e descontinuidade — algo amplamente documentado, incluindo no World Health Report 2008 da OMS, que identificou a fragmentação da prestação como um dos grandes obstáculos à resposta eficaz dos sistemas de saúde.

A criação das Unidades Locais de Saúde — cujo modelo foi ensaiado desde 1999 em Matosinhos, alargado progressivamente e generalizado a todo o SNS a partir de 2023 — representa a mais significativa transformação organizacional do SNS desde a sua criação em 1979. A ideia central é simples na teoria e complexa na prática: integrar sob uma única gestão os cuidados de saúde primários, os cuidados hospitalares de agudos e crónicos e, em muitos casos, os cuidados continuados, numa área geográfica definida. O objetivo foi claro: aproximar a gestão dos percursos reais de cuidados, reduzir a fragmentação e criar entidades com responsabilidade mais integrada sobre populações e território.

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A ambição concetual aproxima-se, com todas as diferenças de contexto, dos modelos de integração mais citados na literatura internacional. A Kaiser Permanente, nos Estados Unidos, tornou-se a referência mais citada de integração vertical entre financiamento, organização e prestação. Mas a comparação tem limites evidentes: a Kaiser opera num contexto segurador e concorrencial, ao passo que a ULS se insere num sistema público, universal e financiado por impostos. A analogia ajuda a perceber o objetivo essencial — reduzir a fragmentação e aproximar níveis de cuidados — sem iludir sobre as condições de partida serem radicalmente diferentes.

Definições
Kaiser Permanente
Organização integrada de saúde norte-americana fundada em 1945, frequentemente citada como referência de integração vertical entre financiador, organização e prestação. Combina um plano de seguro próprio, hospitais e grupos médicos exclusivos, servindo cerca de 12,5 milhões de membros. O estudo de Feachem, Sekhri e White (BMJ, 2002) atribuiu-lhe internamentos mais curtos e melhor coordenação clínica do que o NHS britânico, com custos comparáveis — embora análises posteriores tenham qualificado a comparação. A analogia com as ULS fixa o objetivo de integração, mas tem limites óbvios: a Kaiser opera num mercado segurador, com população selecionada e incentivos contratuais distintos do financiamento universal por impostos.

Esta mudança deve ser lida com rigor. A integração jurídica e institucional foi relativamente rápida. A integração assistencial, cultural e operacional é muito mais lenta. Juntar os CSP e um ou vários hospitais no mesmo organograma não produz, por si só, maior articulação clínica, interoperabilidade ou confiança recíproca. Cria a possibilidade e a obrigação de o fazer, mas não garante o resultado. Para um diretor de serviço, isto tem implicações diretas: a cadeia de decisão é diferente, existem obrigações de coordenação com os cuidados primários que antes não existiam formalmente, e a lógica de financiamento vai progressivamente além da produção hospitalar.

A Direção Executiva do SNS: O Novo Centro de Gravidade

Uma das transformações mais estruturantes da arquitetura recente do SNS foi a criação da Direção Executiva do SNS, através do Decreto-Lei n.º 52/2022, de 4 de agosto. O seu verdadeiro significado não reside apenas na criação de mais uma entidade, mas na tentativa deliberada de reorganizar o eixo de decisão do sistema. Durante décadas, a coordenação do SNS assentou numa lógica difusa, em que a ACSS acumulava funções em tensão constante entre si: planeava, financiava, contratualizava e normalizava. A entidade que definia as regras era, simultaneamente, aquela que as tinha de executar e financiar — com responsabilidades diluídas e uma cadeia de decisão longa e frequentemente opaca.

Definições
Direção Executiva do SNS
Criada pelo Decreto-Lei n.º 52/2022, a DE-SNS veio ocupar o espaço de coordenação operacional que antes estava fragmentado entre as ARS (criadas em 1993) e a ACSS (criada em 2007). A extinção das ARS pelo Decreto-Lei n.º 54/2024 representa uma das centralizações mais significativas da história do SNS português — numa contracorrente em relação à maioria dos sistemas europeus, que têm avançado para maior descentralização regional. A DE-SNS estrutura-se atualmente em torno de Áreas de Saúde — unidades funcionais, sem personalidade jurídica própria, ao contrário das extintas ARS. Um paralelo útil: a criação da NHS England em 2013 tentou separar funções de planeamento e contratualização das funções de regulação, com resultados mistos que incluíram maior sobreposição de competências e ambiguidade de responsabilidade — um aviso para Portugal.

A criação da Direção Executiva introduziu uma tentativa de clarificação: separar o plano operacional do plano financeiro e normativo. Esse movimento ganhou uma segunda dimensão com a extinção das ARS. A eliminação deste nível intermédio não representa apenas uma simplificação administrativa; traduz uma opção política por um modelo menos regionalizado e mais diretamente articulado entre o nível central e as Unidades Locais de Saúde.

Neste novo desenho, a Direção Executiva afirma-se como o principal eixo de coordenação operacional do SNS: é com ela que se negociam objetivos, reporta a produção, discutem recursos e articulam transferências entre instituições. A ACSS continua a desempenhar funções centrais no financiamento, nos modelos de pagamento e no planeamento de recursos. Não houve substituição de uma entidade pela outra — o que existe é uma relação de interdependência entre funções distintas mas complementares. Quando a orientação estratégica, o financiamento, a regulação e o acompanhamento operacional não convergem de forma suficientemente clara, a organização de saúde torna-se mais difícil de interpretar e de gerir. Isto ajuda a perceber que muitas dificuldades de um cargo de direção não resultam da ausência de autoridade formal, mas da coexistência de vários centros de decisão com competências diferentes.

Tabela 2.1 — Atores nacionais e as suas funções relevantes para o Diretor de Serviço
Órgão / EntidadeFunção principalRelevância para o Serviço
Ministério da Saúde / TutelaDefinição de política e legislaçãoEnquadramento legal; Despachos e Portarias que condicionam a organização
Direção Executiva do SNSGestão operacional das ULS e contratação de objetivosDefine metas de acesso, tempos de espera, produção; interlocutor do CA da ULS
ACSSFinanciamento, modelos de pagamento e planeamento estruturalRegras que condicionam o orçamento, a atividade e a sustentabilidade do serviço
DGSNormas clínicas, saúde pública, vigilância epidemiológicaOrientações e normas de orientação clínica (NOC) de cumprimento esperado
SNS.24 / Plataformas digitaisAcesso, triagem e encaminhamentoFluxos de entrada no serviço via urgência e consulta
Entidades reguladoras (ERS, INFARMED, IGAS)Regulação, auditoria, fiscalizaçãoAvaliação externa, inspeções e recomendações com impacto direto na organização do serviço

As metas que chegam ao serviço, os indicadores de acesso e a pressão sobre tempos de resposta já não podem ser entendidas como meras exigências locais do Conselho de Administração. São o produto de uma cadeia mais ampla de governação, contratualização e monitorização, hoje mais integrada e mais centralizada do que há poucos anos. A governação tornou-se mais concentrada, mas também mais transparente naquilo que exige. E isso altera, de forma estrutural, o espaço de decisão clínica, organizacional e estratégica dentro dos serviços.

A Anatomia Interna de uma ULS: Órgãos Formais e as Suas Funções Reais

Uma ULS tem órgãos formais definidos em diploma e estatutos, mas a forma como esses órgãos vivem na prática depende muito da cultura institucional, da qualidade das lideranças e da fase de maturidade organizacional.

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Conselho de Administração

O Conselho de Administração é o órgão que decide. Numa ULS, isso significa que decide não apenas sobre o hospital, mas sobre o conjunto da organização: cuidados de saúde primários, hospital, áreas de suporte e projetos transversais de integração. É, por isso, o centro real de decisão sobre recursos, prioridades, investimento, estrutura organizativa e execução estratégica.

A composição é definida por lei. O CA integra um presidente e até seis vogais executivos, podendo incluir até dois diretores clínicos, um enfermeiro-diretor, um vogal proposto pela área governativa das finanças e um vogal proposto pelos municípios abrangidos, ou pela entidade intermunicipal correspondente. Isto importa porque ajuda a perceber como o órgão pensa: o CA cruza lógica assistencial, lógica de enfermagem, lógica financeira e lógica territorial.

O CA valoriza sobretudo cinco coisas:

  1. Risco clínico. Situações com impacto na segurança, atraso assistencial, incapacidade de resposta ou degradação da qualidade.
  2. Impacto institucional. Problemas que afetam muito mais do que um serviço isolado, ou que têm efeito na imagem, no acesso, nas reclamações ou nos indicadores globais.
  3. Custo e viabilidade. Não basta ter razão clínica. É preciso mostrar quanto custa, como se implementa e que recursos exige.
  4. Alinhamento estratégico. Tudo o que esteja ligado a contratualização, acesso, integração de cuidados, redução de demora, eficiência e cumprimento de metas parte com vantagem.
  5. Consequência de não decidir. Muitas propostas falham porque explicam o pedido, mas não explicam o custo da inação.

O CA não decide no vazio. Decide condicionado por orçamento, tutela, Direção Executiva do SNS, ACSS, contrato-programa, pressão mediática e urgência operacional. A autonomia existe, mas é limitada. Ler uma decisão do CA como se fosse puramente técnica é, muitas vezes, um erro.

Numa ULS, há ainda um ponto essencial: o CA não olha apenas para o interesse do serviço. Olha para o efeito na organização inteira. Uma proposta que beneficie só um setor terá normalmente menos força do que outra que melhore fluxos entre CSP e hospital, evite urgência, reduza internamentos evitáveis ou aumente capacidade resolutiva global.

Direção Clínica

A Direção Clínica é a principal estrutura de coordenação das atividades clínicas da instituição, funcionando na dependência do CA. É dirigida por um diretor clínico, geralmente médico especialista com experiência reconhecida, apoiado por adjuntos com responsabilidades em áreas como qualidade, segurança do doente, formação e integração de cuidados. Nas ULS, esta função torna-se mais exigente pela coexistência, na mesma organização, de cuidados hospitalares e de cuidados de saúde primários — o que se traduz habitualmente em dois polos de direção clínica cuja articulação determina o funcionamento do conjunto.

Na prática, a Direção Clínica situa-se na interseção entre governação clínica, acesso, segurança do doente e cumprimento de metas institucionais. Descrevê-la apenas como uma estrutura de supervisão seria redutor. Em matérias transversais ou constrangimentos de acesso, pode assumir um papel operacional importante, sem substituir o diretor de serviço na condução quotidiana da unidade. Esta posição é estruturalmente exigente porque coloca a Direção Clínica entre o CA, orientado para resultados e eficiência, e o corpo clínico, que valoriza autonomia técnica. Exige não só competência profissional, mas também capacidade de mediação, leitura institucional e autoridade relacional. O conceito de boundary spanner ajuda a compreender bem esta função.

Definições
boundary spanner
Conceito desenvolvido por Tushman & Scanlan (1981) a partir do estudo de laboratórios de investigação e desenvolvimento industrial, onde certas pessoas atuavam como pontes entre comunidades técnicas distintas. Na saúde, foi aplicado por Leathard (2003) e depois por Currie & White (2012) em investigação no NHS inglês, que mostrou que os hybrid clinical-managerial roles — médicos com funções de gestão — são boundary spanners particularmente eficazes quando mantêm credibilidade nos dois mundos. A investigação revelou algo contraintuitivo: não é a proximidade hierárquica que torna um boundary spanner eficaz, mas a capacidade de 'traduzir' problemas e prioridades entre linguagens profissionais diferentes. Um diretor clínico que só fala a linguagem dos gestores perde influência sobre os clínicos — e vice-versa.

Conselho de Fiscalização e Conselho Consultivo

O controlo da legalidade e regularidade financeira das ULS é atualmente assegurado por um fiscal único — tipicamente um revisor oficial de contas —, que substituiu o anterior conselho de fiscalização. O Conselho Consultivo tem natureza consultiva, com funções de acompanhamento e emissão de pareceres não vinculativos. Ao contrário do que a designação pode sugerir, a sua composição está legalmente definida no Estatuto do SNS. Preside uma personalidade de reconhecido mérito nomeada pela CIM ou Área Metropolitana; integram ainda uma personalidade nomeada pelo membro do Governo responsável pela saúde, um representante dos utentes, um representante eleito pelos trabalhadores, um representante dos prestadores de trabalho voluntário (quando existam) e dois elementos escolhidos pelo Conselho de Administração. Nas ULS em particular, a composição é alargada para incluir representantes do centro distrital de segurança social, das IPSS, dos agrupamentos de escolas e das CPCJ — o que reflete a vocação territorial integrada do modelo. A sua relevância reside menos na influência operacional direta e mais na função de legitimidade institucional e articulação com o meio envolvente. Em instituições com forte ancoragem territorial — particularmente em regiões do interior — a capacidade dos seus membros para exercer influência política e mediática não deve ser subestimada.

O Gestor de Área

O gestor de área é uma das figuras mais recentes e, simultaneamente, mais subestimadas na arquitetura das ULS. Não é, em regra, um órgão formal de governação — e, no entanto, participa ativamente na governação prática. O seu papel não reside na definição de políticas clínicas nem na autoridade hierárquica direta sobre os serviços, mas na capacidade de traduzir objetivos institucionais em funcionamento concreto. A sua intervenção faz-se sentir em organização de circuitos, gestão de fluxos assistenciais, monitorização de indicadores, acompanhamento da produção e articulação entre serviços. É muitas vezes através do gestor de área que as metas definidas pelo CA e pela DE-SNS se tornam exigências operacionais tangíveis.

O gestor de área não decide, na maioria das matérias, mas condiciona decisivamente o que é executável. A sua influência manifesta-se menos na decisão formal e mais na capacidade de acelerar, travar ou redefinir processos. O papel do gestor de área aproxima-se do conceito de middle manager descrito por Huy em 2001 como essencial para a implementação de mudanças estratégicas: não decide a estratégia, mas é quem a torna exequível — ou a bloqueia.

Definições
middle manager
O que Huy descobriu empiricamente vai contra o senso comum: nos processos de mudança organizacional, são os middle managers — e não a liderança de topo — quem consegue simultaneamente gerir as emoções das equipas E manter a coerência estratégica. Este paradoxo da 'dupla cidadania' — compreender a realidade operacional do terreno e comunicar na linguagem da liderança de topo — é raro e valioso. Spehar et al. (2014), em investigação em hospitais noruegueses, mostraram que médicos em funções de middle management reportam maior satisfação profissional do que gestores sem identidade clínica, precisamente porque preservam o sentido de propósito clínico enquanto exercem influência organizacional. O problema é que a maioria das organizações não treina nem reconhece explicitamente este papel — trata os middle managers como executores de ordens, não como integradores estratégicos.

Para o diretor de serviço, a relação com o gestor de área é, muitas vezes, ambivalente. Pode ser percecionado como uma extensão da lógica administrativa sobre o espaço clínico, ou como facilitador da organização e da resolução de constrangimentos. Na prática, pode ser ambos. A instituição não tem uma linha hierárquica direta entre diretor de serviço e gestor de área. Existe, isso sim, um espaço de interdependência: o serviço depende da capacidade do gestor de área para viabilizar processos e remover obstáculos; o gestor de área depende do serviço para compreender a realidade clínica. Quando esta relação é funcional, a instituição ganha fluidez e capacidade de resposta. Quando não é, surgem fricções, atrasos e soluções improvisadas.

A Direção de Enfermagem

A Direção de Enfermagem não é um apêndice da Direção Clínica. Tem autonomia própria, linha hierárquica própria e legitimidade organizacional própria, fazendo também parte do Conselho de Administração. Esta coexistência de hierarquias profissionais é uma característica estrutural das instituições de saúde e uma das razões pelas quais a gestão clínica nunca pode ser reduzida a uma cadeia de comando linear. Glouberman e Mintzberg descreveram o hospital como um espaço onde coexistem vários 'mundos' paralelos — o da cura (médicos), o do cuidado (enfermagem), o da gestão e o da governação comunitária — cada um com a sua lógica, os seus valores e os seus mecanismos de autoridade.

O diretor de serviço não detém autoridade hierárquica geral sobre a enfermagem. Isso não significa irrelevância funcional. Significa que a liderança do serviço exige co-governação prática entre a direção médica e a liderança de enfermagem, normalmente através do enfermeiro gestor. Quando esta relação é madura, o serviço ganha consistência operacional, capacidade de antecipação e qualidade de execução. Quando é infantilizada, competitiva ou territorial, o serviço paga o preço todos os dias.

Outras Estruturas que Contam Mais do que Parecem

No quotidiano de um serviço, a capacidade real de agir depende muitas vezes menos das instâncias formais de decisão do que de um conjunto de estruturas técnicas cujo impacto é discreto, mas profundamente determinante. Recursos humanos, aprovisionamento, instalações e equipamentos, sistemas de informação, qualidade e segurança, apoio jurídico, farmácia, meios complementares de diagnóstico e gestão do acesso podem, à distância, parecer áreas laterais em relação à atividade clínica. Na prática, é frequentemente aí que se decide se um serviço funciona, se uma resposta é exequível, se um circuito é seguro.

O conceito de atividades de suporte na cadeia de valor de Michael Porter é especialmente útil aqui. Estas estruturas não são secundárias nem meramente administrativas: são condições necessárias para que a atividade principal produza resultados. Porter e Teisberg aprofundaram esta ideia ao defender que a criação de valor em saúde não depende apenas da qualidade técnica do ato clínico, mas da integração coerente de toda a cadeia assistencial. Nas ULS, o serviço funciona cada vez mais como uma rede de dependências cruzadas, em que o desempenho clínico resulta da interação entre múltiplas estruturas que nem sempre estão sob controlo direto do serviço. A autonomia do diretor de serviço é, por isso, necessariamente relativa — não por insuficiência formal da função, mas porque quase todas as decisões clinicamente relevantes atravessam vários níveis organizacionais.

Definições
cadeia de valor de Michael Porter
O conceito surgiu em 'Competitive Advantage' (1985) para análise industrial: Porter distingue atividades primárias — as que criam valor diretamente para o cliente final (produção, logística, vendas) — de atividades de suporte — as que tornam as primárias possíveis (infraestrutura, RH, tecnologia, aprovisionamento). A inovação de Porter e Teisberg (2006) foi aplicar esta lógica à saúde e redefinir a 'unidade de valor': não é o ato clínico individual, mas o ciclo assistencial completo para uma condição de saúde ao longo do tempo. Esta mudança de perspetiva tem consequências práticas radicais — significa que gerir só o episódio hospitalar é gerir apenas um elo de uma cadeia que inclui prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação. Numa ULS, a cadeia de valor atravessa formalmente vários serviços e dois níveis de cuidados: quem só otimiza o seu elo sem ver a cadeia completa pode criar valor local e destruir valor sistémico.

Estrutura Formal versus Funcionamento Real

O Mapa e o Território

Peguemos numa situação concreta: o diretor de um serviço de medicina interna de uma ULS do Norte precisa de garantir que os doentes internados no seu serviço com patologia cardíaca tenham acesso atempado a ecocardiogramas, atualmente realizados numa lista de espera de seis semanas no serviço de cardiologia. Formalmente, o problema pode ser submetido para a Direção Clínica para mediação.

Formalmente, as decisões seguem trajetos. As propostas sobem pela hierarquia. Os pareceres passam por órgãos próprios. A governação clínica tem instâncias definidas. O acesso obedece a regras. Tudo isto é verdadeiro. Mas, na prática, a velocidade, a qualidade e até a probabilidade de concretização de uma decisão dependem de fatores que o organograma não representa: confiança entre interlocutores, credibilidade do proponente, histórico do serviço, timing da proposta, conflitos latentes, agenda política da instituição, margem orçamental do momento, fadiga organizacional.

A teoria clássica da decisão organizacional, sobretudo na tradição de Herbert Simon, imagina um processo relativamente ordenado: identifica-se um problema, recolhem-se alternativas, avaliam-se opções e escolhe-se a solução mais adequada. Nas instituições de saúde, porém, a realidade raramente obedece a essa sequência. Aproxima-se muito mais do que Cohen, March e Olsen descreveram, em 1972, como o garbage can model: um processo em que problemas, soluções, participantes e oportunidades de decisão coexistem em paralelo e se combinam de forma irregular, muitas vezes mais por timing do que por vontade racional.

Definições
garbage can model
Cohen, March e Olsen publicaram 'A Garbage Can Model of Organizational Choice' em 1972 na Administrative Science Quarterly, num artigo que gerou controvérsia imediata pela sua irreverência: o título usava propositadamente a imagem de um caixote do lixo como metáfora para a mistura aleatória de problemas, soluções, participantes e oportunidades de decisão nas organizações. O modelo foi desenvolvido a partir de estudos em universidades americanas — organizações que os autores designaram como 'organized anarchies'. A analogia com hospitais é forte (múltiplos objetivos, processos instáveis, participação variável), mas os autores nunca o aplicaram originalmente à saúde. Kingdon (1984) desenvolveu a ideia de 'policy windows' — momentos em que as correntes de problemas, soluções e política se alinham — como extensão prática do modelo às políticas públicas. Décadas de investigação em reforma de sistemas de saúde confirmam consistentemente a previsão central: as grandes mudanças acontecem não quando os problemas são resolvidos racionalmente, mas quando as janelas de oportunidade se abrem.
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O modelo foi desenvolvido a partir do estudo de universidades, entendidas como 'organized anarchies'. A analogia com os hospitais é forte: também aqui os objetivos são múltiplos e por vezes concorrentes (qualidade, acesso, eficiência, segurança, sustentabilidade), os processos de trabalho nem sempre seguem uma lógica única, e a participação real nas decisões varia consoante o contexto e os atores presentes em cada momento.

Definições
organized anarchies
Cohen, March e Olsen identificaram três propriedades das 'anarquias organizadas': preferências problemáticas (os objetivos são vagos ou contraditórios entre si), tecnologia pouco clara (os processos internos são mal compreendidos pelos próprios membros que os executam) e participação fluida (quem participa nas decisões muda de reunião para reunião). March confessou mais tarde que teria preferido outro nome — 'organized anarchies' foi escolhido propositadamente para provocar, e funcionou. Curiosamente, Eliot Freidson (1970) descreveu os hospitais médicos, de forma independente, como sistemas de 'professional dominance' com múltiplos centros de autoridade sobrepostos e legitimidades concorrentes — uma convergência notável de dois autores em campos diferentes que nunca se citaram neste contexto. O que ambos captaram é o mesmo: nas organizações onde o conhecimento especializado é a base da autoridade, a anarquia não é uma disfunção, é uma característica estrutural.

As decisões emergem, frequentemente, do encontro entre quatro coisas: um problema suficientemente visível, uma solução disponível, atores com vontade de a empurrar e uma janela de oportunidade institucional. Às vezes essa janela é uma reunião de monitorização; outras vezes é um incidente crítico, uma mudança de liderança, a proximidade do orçamento, a pressão mediática ou a simples maturação de um consenso. Por isso, o diretor de serviço precisa de desenvolver uma competência muitas vezes ausente da formação médica: perceber não só se uma proposta é boa, mas quando tem hipótese de passar. O momento certo, numa organização, é muitas vezes tão importante quanto o argumento certo.

Um pedido de equipamento pode parecer clinicamente irrefutável e mesmo assim falhar se for apresentado como mera necessidade do serviço. O mesmo pedido pode ter outra sorte se for enquadrado como resposta a um gargalo de acesso, redução de listas de espera, melhoria de segurança do utente ou em linha com um objetivo contratualizado. Não mudou apenas a apresentação — mudou a gramática organizacional da proposta.

Na vida real, muitos problemas resolvem-se por vias relacionais antes de chegarem a uma via formal. O diretor de medicina interna fala diretamente com o diretor de cardiologia e combinam um circuito mais ágil para determinados doentes internados. Ou identifica um momento oportuno — uma pausa para café, uma reunião informal — e consegue desbloquear em minutos o que demoraria semanas pelos canais administrativos. Isto não corresponde a uma perversão do sistema. Corresponde ao modo como sistemas complexos ganham capacidade de resposta quando a formalidade, por si só, é demasiado lenta para a exigência do terreno.

A teoria dos custos de transação ajuda a compreender o porquê. Os canais formais são indispensáveis, mas têm custos próprios: tempo, burocracia, validações sucessivas, circuitos de aprovação e rigidez processual. Em contextos de elevada interdependência, as relações informais funcionam muitas vezes como mecanismos de coordenação mais rápidos e menos onerosos. E, como mostrou Granovetter, nem sempre são as relações mais fortes que trazem maior utilidade organizacional. As ligações fracas — contactos ligeiros com colegas de outros serviços ou estruturas — podem ser decisivas para obter informação, antecipar bloqueios ou abrir vias de resolução que não seriam acessíveis dentro do círculo relacional mais próximo.

Definições
teoria dos custos de transação
Desenvolvida por Oliver Williamson nos anos 70, estendendo o artigo fundador de Ronald Coase de 1937 'The Nature of the Firm'. Williamson ganhou o Nobel de Economia em 2009 precisamente por este trabalho. A ideia central é que toda a coordenação económica tem custos invisíveis — pesquisa de informação, negociação, monitorização e resolução de litígios — e que a forma de governação mais eficiente depende de três dimensões da transação: especificidade dos ativos envolvidos, grau de incerteza e frequência. A aplicação hospitalar feita por Preker e Harding (2003) para o Banco Mundial tem uma implicação prática direta: quanto mais específica e incerta for uma transação clínica (cirurgia complexa, cuidados críticos), mais eficiente é a hierarquia interna; quanto mais rotineira e padronizada (análises simples, consultas de vigilância), mais o mercado ou a externalização funcionam. Isto fornece um critério racional para decidir o que manter no serviço e o que contratualizar externamente.
Tabela 2.2 — Estrutura formal vs. funcionamento real nas ULS
O que diz a estrutura formalO que acontece na realidade
A Direção Clínica coordena todos os serviçosA coordenação efetiva depende da rede de relações pessoais do Diretor Clínico
O CA decide sobre recursos e investimentoAs prioridades reais são moldadas por quem tem acesso e credibilidade junto do CA
As propostas sobem pelo canal hierárquicoAs propostas que chegam com apoio pré-negociado têm muito maior taxa de aprovação
O orçamento é definido centralmenteServiços com diretores mais influentes conseguem frequentemente mais recursos
A escala de médicos é da responsabilidade do serviçoIntervenções externas (sindical, política, relacional) são frequentes
A avaliação de desempenho é objetiva (SIADAP)A avaliação real é fortemente influenciada pela relação entre avaliador e avaliado
A referenciação segue critérios clínicos objetivosA rapidez da referenciação depende, em muitos casos, de quem faz o pedido e da relação entre os serviços envolvidos

Quem Decide o Quê: Um Mapa Prático

Para navegar a cadeia de decisão efetiva, é útil ter uma representação clara de quem tem poder de decisão em que tipo de matérias — e quem tem poder de influência, que é diferente.

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Uma leitura atenta desta lista revela algo importante: em quase todas as decisões, o diretor de serviço não é quem decide, mas é quase sempre quem pode influenciar de forma determinante. O seu poder é essencialmente um poder de agenda-setting, de construção de argumento e de mobilização de apoios.

Definições
agenda-setting
Conceito desenvolvido por McCombs e Shaw em 1972 no estudo da comunicação política e mais tarde adaptado à teoria das organizações: a capacidade de determinar quais são os temas considerados prioritários para discussão e decisão. Não consiste em ganhar o argumento, mas em definir sobre o que se argumenta. Kingdon (1984) integrou-o na análise das políticas públicas, articulando-o com as janelas de oportunidade. Nas instituições de saúde, quem controla a agenda dos órgãos de direção controla, em larga medida, o que pode ser decidido em cada ciclo orçamental ou estratégico.

Poder Formal e Poder Informal: Uma Distância a Não Ignorar

Nas organizações de saúde coexistem sempre dois planos de poder: o formal, conferido pelo cargo e pela posição no organograma, e o informal, construído através de experiência, reputação, acesso à informação, controlo de recursos, centralidade relacional e capacidade de resolver problemas. Confundir autoridade hierárquica com influência real é um dos erros mais frequentes de leitura institucional. Num hospital, existem várias figuras com poder informal significativo independentemente do cargo formal:

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A história de Ernest Codman ilustra bem que ter razão técnica não basta. Codman foi um pioneiro da medição de resultados clínicos e da ideia de responsabilização pelos resultados finais, mas o seu confronto com o establishment hospitalar de Boston mostrou de forma quase exemplar a distância que pode existir entre o poder técnico e o poder institucional. Tinha visão, rigor e razão científica em vários aspetos, mas não dispunha da rede de influência necessária para fazer triunfar a sua agenda dentro da estrutura dominante. A lição organizacional é clara: numa instituição complexa, a qualidade técnica de uma ideia é essencial, mas raramente suficiente por si só.

Há, contudo, um ponto que tem de ser dito com clareza: a utilidade da rede informal não pode ser romantizada ao ponto de justificar opacidade, desigualdade ou bypass de regras de acesso. Relações informais continuam a ser valiosas para coordenar, antecipar, esclarecer e agilizar. Mas não podem substituir critérios explícitos, rastreabilidade, justiça procedimental e governação do acesso quando estão em causa listas de espera, prioridades clínicas, externalização ou monitorização institucional. Dito de forma simples: a informalidade pode ser uma ferramenta de coordenação muito eficaz, mas não pode transformar-se na infraestrutura moral do sistema.

O que este capítulo procurou fazer foi descrever a arquitectura — o enquadramento legal, os órgãos formais, a distância entre a hierarquia no papel e o poder que circula de facto. Como habitar essa arquitectura com eficácia — como se lê o território, como se mapeia quem interessa para cada decisão, como se exerce influência sem autoridade formal, como se constroem alianças e se interpreta o que a instituição não diz explicitamente — é o trabalho do Capítulo 3.

O Modelo ULS na Prática: O Que Muda para o Diretor de Serviço

A Integração de Cuidados como Imperativo (e como Desafio)

A maior promessa do modelo ULS é a integração de cuidados: doentes que deixam de ser atirados de um lado para o outro entre o hospital e o centro de saúde, percursos clínicos que funcionam em continuum, com partilha de informação entre profissionais de diferentes níveis de cuidados. É uma promessa genuinamente relevante — especialmente para uma população envelhecida com multimorbilidade — e com suporte sólido na investigação internacional sobre sistemas de saúde.

A maior dificuldade do modelo ULS é que integrar estruturas que evoluíram separadas durante décadas — com culturas diferentes, linguagens diferentes, sistemas de informação diferentes e incentivos diferentes — é extraordinariamente complexo. A integração jurídica e formal pode ser feita pelo decreto, mas a integração cultural e operacional está, na maior parte das ULS, ainda atrasada.

Juntaram-nos numa ULS como quem junta dois departamentos num organograma. Nós, no hospital, e eles, nos centros de saúde. Continuamos com sistemas de informação diferentes, agendas diferentes, linguagens diferentes. A integração real acontece quando os médicos de família e os especialistas começam a telefonar uns para os outros. E isso só acontece quando há confiança mútua.

Pensamento de um diretor de serviço de uma ULS

Para o diretor de serviço hospitalar, a existência de uma ULS coloca questões práticas novas:

A alta hospitalar já não pode ser pensada apenas como fecho do episódio hospitalar. Numa ULS madura, a alta é um ponto de transição de responsabilidade dentro da mesma organização. Quando essa transição falha, a instituição falha contra si própria.

A contratualização das ULS em 2025, enquadrada no contrato-programa 2024-2026, assentou numa lógica integrada: o financiamento passou a incluir componentes de capitação ajustada pelo risco, programas específicos, fluxos de utentes e incentivos institucionais. Isto significa que o serviço opera dentro de uma entidade cuja leitura económica e assistencial é cada vez menos hospitalocêntrica. É aqui que se torna essencial compreender o conceito de capitation.

Definições
capitation
O pagamento per capita ajustado pelo risco tem raízes históricas na medicina de família britânica desde 1948, mas a versão moderna e sofisticada — com ponderação por idade, sexo, carga de doença e factores socioeconómicos — é muito mais recente. Nos EUA, os estudos pioneiros de Luft (1978) sobre HMOs mostraram que o modelo de capitação estava associado a taxas de hospitalização 20-30% inferiores ao fee-for-service, sugerindo que os incentivos para prevenção funcionam. Mas a investigação também identificou o risco inverso: em populações de alta complexidade, a capitação pode criar incentivos para sub-tratar ou adiar cuidados dispendiosos. A Holanda e o Reino Unido desenvolveram fórmulas de capitation ajustada pelo risco cada vez mais sofisticadas precisamente para neutralizar estes incentivos perversos. A fórmula portuguesa para as ULS ainda está em evolução.
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Nos modelos de capitação existe sempre, pelo menos em teoria, o risco de cream-skimming ou risk selection: a tendência para ser mais vantajoso acompanhar doentes menos complexos e menos dispendiosos. Numa ULS pública o risco é estruturalmente menor: a responsabilidade territorial impede que a instituição simplesmente ignore ou rejeite a sua população. Mas não desaparece — pode manifestar-se de forma subtil, na priorização implícita de casos menos complexos para procedimentos eletivos, na afetação de tempos de consulta ou na gestão das listas de espera. O modelo de financiamento não é neutro: molda o que é acompanhado, com que urgência e com que profundidade.

Definições
cream-skimming
O economista Joseph Newhouse demonstrou em 1996 que nenhum sistema de risk adjustment é suficientemente perfeito para eliminar completamente os incentivos à seleção de doentes favoráveis. Nos EUA, os Medicare HMOs dos anos 80-90 atraíam consistentemente doentes mais saudáveis do que a média da população — obtendo lucros sem melhorar cuidados. O fenómeno oposto chama-se 'lemon dropping': desviar doentes complexos e dispendiosos para o sector público ou para concorrentes. A ACA (2010) tentou combater o cream-skimming através de garantias de acesso universal e corredores de risco. Em Portugal, a responsabilidade territorial das ULS cria uma proteção estrutural: uma ULS não pode simplesmente recusar a sua população. Mas pode, de forma subtil, deprioritizar casos complexos para procedimentos eletivos — o que torna a monitorização dos indicadores de equidade de acesso essencial.

As Novidades em 2026: Acesso, SINACC, Urgência e Transformação Digital

O Decreto-Lei n.º 12/2026, de 22 de janeiro, criou o Sistema Nacional de Acesso a Consulta e Cirurgia (SINACC), definindo-o como sistema de gestão destinado a garantir o acesso a consultas de especialidade hospitalar, cirurgias e procedimentos terapêuticos de acordo com critérios de prioridade clínica e dentro dos tempos máximos legalmente garantidos. O diploma prevê ainda adesão contratual, mecanismos de externalização preventiva e um reforço da coerência institucional da reforma.

Definições
SINACC
O SINACC substitui o SIGIC (Sistema Integrado de Gestão do Acesso à Cirurgia), criado em 2004, que incidia exclusivamente sobre listas de espera cirúrgicas. A principal inovação do SINACC é a extensão a consultas de especialidade e procedimentos terapêuticos — áreas onde o SIGIC não tinha competência — e a introdução da 'externalização preventiva': quando um tempo de espera está prestes a exceder o limite legalmente garantido, o sistema pode acionar automaticamente a referenciação para o sector privado ou social, sem aguardar que o prazo seja violado. Ao contrário do SIGIC, que muitos hospitais adaptaram precariamente às suas plataformas existentes, o SINACC foi desenhado com interoperabilidade e codificação de prioridade clínica integradas de raiz — o que representa uma ruptura concetual significativa na governação do acesso.

A importância disto para um diretor de serviço é enorme. Significa que o acesso programado deixa de ser apenas uma combinação local entre agendas, listas e capacidade interna. Passa a estar inscrito numa arquitetura nacional de gestão, prioridade clínica, rastreabilidade, monitorização e eventual externalização. O serviço continua a organizar parte importante da resposta; mas fá-lo dentro de um enquadramento mais estruturado, mais observável e, potencialmente, mais exigente.

Este movimento já vinha sendo preparado. O Plano de Emergência e Transformação na Saúde, aprovado em maio de 2024, assumiu como prioridades a regularização do acesso, o reforço da urgência para situações realmente urgentes, a criação de Centros de Atendimento Clínico, a consulta do dia seguinte nos CSP, o reforço da articulação via SNS 24, a revisão dos protocolos de consulta de especialidade e a extinção do SIGIC com criação do SINACC como medida estruturante.

Definições
Plano de Emergência e Transformação na Saúde
Aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 57/2024 de 16 de maio, com dotação de 150 milhões de euros. Estruturou-se em três eixos: acesso (consultas, cirurgias e listas de espera), urgência (redefinição dos critérios de utilização, criação dos Centros de Atendimento Clínico como alternativa à urgência para situações não urgentes) e transformação digital (interoperabilidade e dados clínicos). A meta inicial foi reduzir 500 000 consultas em lista de espera até ao final de 2024. Contextualmente, o Plano foi apresentado numa fase de elevada pressão mediática sobre o SNS, com recordes de afluência às urgências e listas de espera cirúrgica acima dos tempos máximos garantidos. O SINACC, criado pelo DL 12/2026, é a peça que consolida institucionalmente a governação nacional do acesso que este Plano estabeleceu como prioridade política — funcionando como o seu dispositivo de execução estrutural.

Isto liga-se diretamente ao problema crónico dos serviços de urgência. O perfil de saúde do país de 2025 assinala que Portugal apresenta a maior utilização de serviços de urgência da UE. A transformação digital deixou de ser acessória: a governação institucional depende hoje cada vez mais de dados, plataformas, integração de informação e visibilidade do acesso. O diretor de serviço que continua a pensar o digital como tema técnico periférico está a ler mal a instituição.

O Aspeto Mais Subestimado: O Papel dos Municípios, Território e Cuidados Primários

O papel dos municípios, do território e dos cuidados de saúde primários é, muitas vezes, subestimado. A transferência de competências para os municípios introduziu uma nova camada de decisão e execução territorial, sobretudo em matérias como instalações, manutenção, conservação, equipamentos e outras funções de proximidade ligadas ao funcionamento das unidades de cuidados de saúde primários. Do ponto de vista da teoria organizacional, trata-se menos de uma verdadeira devolução de poder e mais de um modelo de delegação: o Estado central mantém a responsabilidade global pelo sistema, mas desloca para o nível municipal um conjunto de funções operacionais.

A evidência internacional sobre descentralização em saúde mostra resultados mistos: pode melhorar a capacidade de resposta local e a adaptação ao território, mas também pode ampliar desigualdades quando a capacidade técnica, financeira e organizativa dos contextos locais é muito desigual. Essa cautela é especialmente relevante em Portugal, onde os municípios apresentam recursos, escala e robustez institucional muito heterogéneos.

Em Matosinhos, por exemplo, o Plano Municipal de Saúde 2019-2021 previa medidas como o apoio ao transporte de doentes não urgentes com dificuldades motoras na deslocação a consultas e tratamentos, a dinamização de teleassistência em situações de isolamento social e a criação de respostas de saúde de proximidade e apoio à senescência. Isto mostra que a intervenção municipal não se limita à gestão de infraestruturas: pode influenciar o acesso, a continuidade assistencial e, indiretamente, os padrões de utilização hospitalar.

Para um diretor de serviço hospitalar, isto pode parecer periférico, mas não é. A qualidade do edificado dos centros de saúde, a manutenção do parque tecnológico dos CSP, os transportes de proximidade, a localização física das respostas assistenciais e a capacidade de desenvolver programas comunitários influenciam diretamente o acesso, a referenciação, a adesão dos doentes e, em última análise, a pressão sobre o hospital. Numa ULS, o hospital está ligado a uma realidade territorial mais espessa, onde decisões de base municipal podem facilitar ou dificultar a continuidade de cuidados, a proximidade assistencial e a perceção pública do próprio SNS.

O Que Isto Tudo Significa na Segunda-Feira de Manhã

Compreender a arquitetura organizacional de uma ULS é importante. Mas, em gestão, compreender nunca chega. A questão decisiva é sempre outra: o que é que este conhecimento muda, concretamente, na forma como um diretor de serviço lê os problemas, prepara decisões e conduz relações institucionais?

Muda, antes de mais, a forma de interpretar as dificuldades. Quando um problema persiste, raramente basta perguntar 'quem falhou?'. A pergunta mais útil é outra: em que ponto da operação a continuidade foi interrompida, que dependências estão a bloquear a resposta, que incentivos estão desalinhados e que nível de governação está realmente implicado. Muitos problemas que parecem clínicos são, na verdade, organizacionais. E muitos problemas que parecem locais têm origem fora do serviço.

Muda também a forma de preparar propostas. Uma proposta interna sólida já não pode limitar-se à sua justificação clínica. Tem de mostrar impacto em acesso, risco, continuidade de cuidados, integração com os cuidados de saúde primários, sustentabilidade, disponibilidade de dados e coerência com prioridades institucionais. Quanto mais a instituição for monitorizada por indicadores e metas, menos espaço existe para propostas assentes apenas na evidência técnica do serviço, por mais sólida que ela seja.

Muda ainda a gestão das relações. O diretor de serviço precisa de mapear cedo a sua rede de interlocutores relevantes: Direção Clínica, CA, Direção de Enfermagem, recursos humanos, compras, informática, gestão do acesso, meios complementares, estruturas dos cuidados de saúde primários e, em certas matérias, parceiros externos à unidade hospitalar. Conhecer estas pessoas antes de precisar delas é uma das formas mais discretas, e mais eficazes, de liderança institucional.

Muda igualmente a utilização dos canais formais. Registos escritos, propostas estruturadas, despachos, pareceres e circuitos institucionais continuam a ser indispensáveis para legitimar decisões, criar memória organizacional e proteger juridicamente os intervenientes. Mas nem todos os problemas se resolvem ao mesmo ritmo nem pelo mesmo canal. Parte da maturidade de um diretor de serviço está em saber distinguir quando a formalidade é proteção necessária e quando é apenas lentidão improdutiva.

Muda também a relação com os cuidados de saúde primários. Na ULS, a medicina geral e familiar deixou de ser apenas origem de referenciação ou destino de altas. Passou a integrar a mesma instituição, com tudo o que isso permite e exige. Os diretores de serviço que compreendem esta mudança ganham capacidade para melhorar transições, reduzir ruturas de seguimento e construir circuitos mais inteligentes entre níveis de cuidados.

Muda, além disso, o valor dos indicadores. Saber como o serviço é visto através de métricas de acesso, produção, qualidade e eficiência deixou de ser um interesse periférico de gestão. Passou a fazer parte do núcleo funcional da direção do serviço. Perceber como esses indicadores são construídos, como circulam na instituição e como influenciam a leitura que a Direção Clínica, o CA e a DE-SNS fazem do desempenho do serviço é hoje uma forma elementar de lucidez organizacional.

E muda, por fim, a própria identidade do cargo. O diretor de serviço é, cada vez mais, a pessoa que mais capacidade tem para ser o integrador de níveis de cuidados, um mediador entre profissões, um tradutor entre linguagem clínica e linguagem institucional e um gestor de dependências cruzadas. Em termos simples: alguém a quem já não basta saber medicina. Tem também de saber tornar navegável, para os outros e para si próprio, um sistema mais integrado, mais monitorizado e mais exigente.

Para terminar, partilha-se a noção de organizational ambidexterity — a capacidade de uma organização, e de um líder, de simultaneamente explorar o que já funciona (exploit) e explorar novas possibilidades (explore). O diretor de serviço tem de manter o serviço a funcionar diariamente enquanto implementa mudanças e adaptações. Estas duas lógicas são tensão permanente — não um problema a resolver, mas uma condição a gerir.

Definições
organizational ambidexterity
A metáfora vem da biologia — organismos que funcionam eficazmente em dois ambientes distintos. James March forneceu a base teórica num artigo seminal de 1991 (Organizational Science): a tensão entre 'exploitation' (melhorar o que já existe) e 'exploration' (procurar o novo) é estrutural em todas as organizações, e os sistemas que se especializam demasiado numa das duas dimensões acabam por declinar. O'Reilly & Tushman (2004) tornaram o conceito operacional no Harvard Business Review, propondo que a ambidextria pode ser estrutural (unidades separadas para cada lógica) ou contextual (os mesmos indivíduos alternam entre as duas). Investigação posterior em hospitais (Jansen et al., 2009) mostrou que o trabalho clínico de rotina tende a 'expulsar' o tempo dedicado à inovação e melhoria — a menos que o líder proteja deliberadamente esse espaço. Na prática: o diretor que não reserva tempo para pensar e mudar é engolido pela urgência do quotidiano.

Leituras Recomendadas

  1. Mintzberg, H. The Structuring of Organizations (1979)

    A obra onde Mintzberg define os arquétipos organizacionais, incluindo a burocracia profissional. Densa, mas a secção sobre hospitais é de leitura obrigatória.

  2. Weick, K. Making Sense of the Organization (2001)

    Sobre como as organizações complexas 'fazem sentido' em ambientes caóticos. Especialmente relevante para quem gere em sistemas fracamente acoplados como os hospitais.

  3. Cohen, M., March, J. & Olsen, J. A Garbage Can Model of Organizational Choice (1972)

    O artigo original é curto e acessível. Muda para sempre a forma como olha para os processos de decisão organizacional.

  4. Nunes, A.M. & Ferreira, D.C. Reforms in the Portuguese health care sector: challenges and proposals (2019)

    Uma análise sólida das reformas organizacionais do SNS português e dos seus resultados.

  5. Porter, M.E. & Teisberg, E.O. Redefining Health Care: Creating Value-Based Competition on Results (2006)

    Essencial para a linguagem de criação de valor em saúde.

  6. Glouberman, S. & Mintzberg, H. Managing the Care of Health and the Cure of Disease (2001)

    Diretamente relevante para compreender as hierarquias paralelas nas instituições de saúde.

  7. Shortell, S.M. et al. Remaking Health Care in America (2000)

    Sobre integração de sistemas de saúde — comparação internacional com relevância direta para o modelo ULS.

  8. Barros, P.P. Economia da Saúde: Conceitos e Comportamentos (2013)

    Referência portuguesa acessível e rigorosa para médicos que querem aprender economia da saúde.

Sabe agora como está organizado o SNS e onde fica o poder real. Mas saber o mapa não é suficiente para o navegar. O Capítulo 3 entra na dinâmica das relações de poder formais e informais dentro da instituição: como se constroem alianças, como se influencia sem autoridade direta, e como se posicionar estrategicamente numa organização complexa sem se tornar político no pior sentido da palavra.