Cadeia de decisão: quem decide, quem influencia

A literatura de gestão chama a isto direitos de decisão (decision rights) — o conceito foi desenvolvido por Brickley, Smith e Zimmerman nos anos 1990 e tornou-se uma das ferramentas analíticas mais úteis para perceber organizações complexas. A ideia central é simples: cada decisão pode ser desmontada em quatro componentes diferentes — quem tem o direito de iniciar a proposta, quem tem o direito de ratificar ou vetar, quem tem o direito de executar e quem fica com a responsabilidade se algo correr mal. Nas organizações de saúde, estes quatro componentes raramente pertencem à mesma pessoa.

O resultado é o que se vê no quotidiano de qualquer ULS: a mesma decisão pode ter um "dono" formal (quem assina) muito diferente do "dono" real (quem efetivamente determina o resultado). E, curiosamente, ambos podem ser diferentes de quem irá executar a decisão e de quem ficará com a responsabilidade se algo correr mal. Esta dispersão não é um defeito a corrigir — é a forma normal como funcionam organizações que dependem de conhecimento técnico distribuído e de autoridade profissional para funcionar.

Há um segundo conceito que ajuda a ler a tabela abaixo. Os politólogos americanos Peter Bachrach e Morton Baratz publicaram em 1962 um artigo célebre — "Two Faces of Power" — em que distinguiam dois tipos de poder muitas vezes confundidos. O primeiro é o poder de decisão: a capacidade de fazer aprovar a proposta A em vez da B. O segundo, mais subtil e geralmente mais importante, é o poder de agenda: a capacidade de determinar o que entra na discussão e o que fica de fora — o que é sequer colocado à votação e o que não chega nunca a ser considerado. Nos hospitais, este segundo tipo de poder é exercido diariamente por quem controla o acesso à reunião, define os pontos da ordem do dia e enquadra os problemas.

"To the extent that a person or group — consciously or unconsciously — creates or reinforces barriers to the public airing of policy conflicts, that person or group has power." Bachrach & Baratz (1962), "Two Faces of Power"

A tabela abaixo distingue, para cada tipo de decisão típica de uma ULS, quem detém o direito formal de decidir (a coluna do meio) e quem tem influência real determinante (a coluna da direita). A leitura útil não é descritiva — é estratégica: antes de iniciar qualquer proposta, identifique cuidadosamente o conteúdo das duas colunas para o seu caso específico. Quem está só na primeira coluna assina o papel; quem está só na segunda determina o resultado. Quem está em ambas é quem realmente governa o processo.

Tipo de decisão Decisor formal Influência determinante
Contratação de médicos CA Dir. Clínico Dir. Serviço RH
Aquisição de equipamento CA Compras Dir. Serviço Gestor de área Dir. Financeiro
Normas e protocolos Direção Clínica Dir. Serviço Pares clínicos Comissões
Metas de produção CA DE-SNS Dir. Serviço Dir. Clínico Gestor de área
Organização interna do serviço Dir. Serviço Equipa médica Enfermeiro-chefe
Processo disciplinar CA Dir. Clínico Serviço Jurídico RH
Transferência de doentes inter-serviços Diretores de ambos os serviços Relação pessoal entre diretores
Orçamento do serviço CA Dir. Financeiro Dir. Clínico Gestor de área histórico do serviço

Os médicos que vêm da gestão de projetos clínicos (ensaios, programas de qualidade, comissões hospitalares) já encontraram provavelmente uma ferramenta chamada matriz RACI — Responsible, Accountable, Consulted, Informed. É uma versão operacional do conceito de direitos de decisão: para cada tarefa, identifica-se quem executa (R), quem responde (A), quem é consultado antes (C) e quem deve ser informado depois (I). É uma ferramenta prática que vale a pena ter presente quando se mapeia qualquer processo de mudança institucional.

Há um último detalhe que vale a pena ter presente. Em organizações como as ULS, as decisões raramente são pontos isolados; são sequências de micro-decisões que se acumulam. Uma "contratação" não é uma decisão — é dezenas: definir o perfil, abrir o concurso, validar candidatos, propor admissão, aprovar formalmente, integrar. Em cada micro-decisão a tabela acima muda ligeiramente: o decisor formal pode ser sempre o mesmo (CA), mas a influência real distribui-se de forma diferente em cada fase. O diretor de serviço eficaz sabe identificar em que micro-decisão a sua influência é maior — e concentra energia aí.

Três perguntas antes de apresentar uma proposta: