O mapeamento que a Dra. Sofia produziu não é abstracto. Cada hora tem um nome, cada espera tem uma causa. O que se segue é o percurso real — decomposto passo a passo.
Cerca de 8% do tempo total correspondeu a actividade clínica. Os restantes 92% — mais de dezassete horas — foram espera entre serviços, transições sem dono, validações administrativas, e um gargalo de seis horas que ninguém tinha medido até ao mapeamento. Não porque os profissionais estivessem parados — porque o percurso estava cheio de intervalos invisíveis.
| # | Etapa | Duração |
|---|---|---|
| 1 | Triagem | 5 min |
| 2 | Espera por observação médica | 1h30 |
| 3 | Observação médica inicial | 25 min |
| 4 | Espera por análises e imagem | 2h30 |
| 5 | Reavaliação clínica com resultados | 20 min |
| 6 | Espera por parecer de especialidade | 3h30 |
| 7 | Parecer e decisão de internamento | 30 min |
| 8 | Espera por atribuição de cama | 6h00 |
| 9 | Transporte e admissão na enfermaria | 10 min |
| 10 | Espera por reconciliação e admissão formal | 4h00 |
Das dezanove horas totais, seis acontecem entre a decisão clínica de internar e a atribuição efectiva de cama. Não seis minutos. Seis horas — quase um terço de todo o percurso, num único segmento. E a causa, quando mapeada com a equipa, era banal a ponto de ser embaraçosa.
A lista de altas do dia só era consolidada às 16h — quando a maior parte das altas já tinha saído de manhã. Entre a libertação física das camas (11h–13h) e o momento em que essa libertação se tornava visível no sistema (16h), existiam camas vazias que nenhum gestor de camas sabia que estavam vazias. Doentes aguardavam por camas que já existiam — apenas ainda não contabilizadas.
Ninguém desenhou o problema. Ninguém o defende. Ninguém beneficia dele. E ele continua a operar — silenciosamente, durante anos, custando seis horas a cada doente que entra pela urgência médica. É o tipo de problema que só fica visível quando se desenha o percurso por inteiro. Antes disso, eram dezanove horas sem rosto; depois, é uma causa identificável que se resolve em três meses, sem orçamento adicional, com uma decisão administrativa.