Capítulo 12 · Gestão da Mudança
O mesmo serviço de pneumologia. A mesma iniciativa. Dois ângulos que nenhum plano previu.
Dr. Miguel
Referenciar um doente passou a exigir doze passos num sistema paralelo ao processo clínico habitual. Nenhum colega sabia o procedimento de cor. Cada referenciação consumia atenção que antes era automática.
«Perco dez minutos por doente só a navegar na plataforma. Não é o que vim fazer para aqui.»
Especialistas experientes, que geriam as suas agendas com fluidez há anos, sentiram-se de repente lentos e dependentes de uma plataforma que ainda não dominavam — e de suporte técnico que raramente chegava a horas.
«Nunca me senti tão incompetente. E o projecto era meu.»
O modelo retirava ao pneumologista a titularidade do doente — que passava a ser seguido por enfermeiros de telemonitorização. Para muitos colegas, isso não era uma questão processual. Era uma questão de papel.
«Deixei de ser o médico do doente. Passei a ser o médico que o encaminhou.»
Enf.ª Mariana
Cada sessão de ensino passou a ter um registo digital obrigatório de dezasseis campos. O tempo de documentação duplicou. A atenção que antes ia toda para o doente ficou dividida com o ecrã.
«Saio da sala a olhar para o tablet, não para o doente. Não foi para isto que estudei.»
Mariana construíra a sua reputação numa competência difícil de padronizar: ler o doente, adaptar o ensino, criar confiança. O protocolo transformou isso numa check-list com critérios fixos. Sentia que a avaliavam pelo que registava, não pelo que fazia.
«O protocolo diz que fiz bem. Eu sei que fiz diferente. Não é a mesma coisa.»
No serviço, a Mariana era «a que sabe ensinar inaloterapia». Após o protocolo, passou a ser «a que preenche os formulários mais depressa». A competência que a distinguia foi nivelada. Não se recusou a colaborar — mas colaborou sem energia, e isso nota-se.
«Já não sou a especialista. Sou só mais uma a executar o protocolo.»